“É uma maldita parte de mim que nunca consegui entender e, há pouco mais de um ano, descobri que essa merda não era bem a única parte. Agora não me admira que minha criação foi um tanto… esquisita, e que, no fundo, as pessoas me achassem estranho…, mas se ao menos soubessem…”

Sem pensar muito, Bénézet abriu a gaveta inferior da mesa. Seus dedos tremeram ao encontrar a garrafa de conhaque, e a tampa metálica girou com um estalo. Encheu o copo e, sem hesitar, o virou em um só gole, sentindo o calor cortante que descia rasgando sua garganta. 

Nada mudou. 

Desejando extinguir tudo — até a si mesmo —, encheu o copo outra vez.  O líquido âmbar desapareceu com a mesma urgência, mas trouxe somente o gosto amargo de sempre. Ficou um tempo olhando o reflexo distorcido no fundo do copo vazio. O cômodo parecia menor. O ar mais denso. Respirou fundo, os ombros cedendo ao próprio peso. Então, estendeu a mão para a gaveta. Abriu devagar. O revólver esperava. Frio ao toque. Encostou o cano contra a própria têmpora, os dentes cerrados, os olhos fixos na tela do monitor. Não tinha forças para puxar o gatilho. Nunca teve. Sabia disso desde sempre. Apagar a si era um ato que exigia mais do que possuía, e, ironicamente, essa consciência só alimentava sua frustração. 

Devolveu a arma à gaveta. Restava o monitor, as letras miúdas, o cartão de memória que voltou a girar entre os dedos — removido de um dos objetos apreendidos — enquanto revisava o que havia preenchido:

Documento de Registro de Evidências

Órgão
Divisão de Investigações, Delegacia Nascentes
UF
Minas Gerais
Responsável
Bénézet Cabral
Data
[obrigatório]
N.º do Caso
N011.01342

Bénézet tamborilou os dedos na mesa antes de continuar.

1. Local da Apreensão

Endereço
Rua Menino Libélula, 32 – Chalé de Pescador
Data e Hora da Apreensão
[obrigatório]
Descrição do Local
Suíte 302 em estado parcial de arrombamento

Inclinou-se mais perto da tela.

2. Objetos Apreendidos

Item 01: Fotografias de galáxias e outros símbolos

  • Descrição*: 12 fotografias coloridas representando galáxias e constelações. Símbolos desenhados à mão. Interrogações e setas indicativas.
  • Características*: Papel fosco, 10×15 cm. Manchas de manuseio evidentes.

Bénézet demorou um segundo a mais antes de rolar a página.

Item 02: Escritos em símbolos desconhecidos

  • Descrição*: Páginas avulsas. Sistema de escrita/grafia desconhecido. Ilustrações geométricas e esboços.
  • Características*: Papel envelhecido, cor marfim; 21×29 cm; vestígios de queimaduras em algumas páginas.
  • Observação: A natureza do item requer perícia linguística e grafotécnica.

Bénézet passou a língua pelos lábios secos.

Item 03: Mapas

  • Descrição*: Dois mapas manuscritos, representando regiões geográficas não identificadas. Áreas marcadas com interrogações e setas.
  • Características*: Papel vegetal, dobrados em diversas partes. Anotações adicionais em vermelho.

Item 04:Fotografias de banhistas no Poço Profundo

  • Descrição*: Capturadas em locais ribeirinhos. Uma mostra Naimoân Pompeia mergulhando nas águas do rio. A outra exibe Francis no mesmo local, saindo do rio com uma expressão reservada. Ao notar bem nas fotografias perceb

Bénézet ficou parado, os dedos suspensos sobre o teclado e os olhos fixos no cursor. Sua atenção, porém, já escorregava para outro item:

Item 05: Texto “Ypykuéra”

  • Descrição*: [obrigatório]
  • Características*: [obrigatório]

Tratava-se de um fragmento de manuscrito — a caligrafia se diferenciava claramente das demais anotações no livro e nos outros documentos apreendidos. O papel, com marcas evidentes de degradação pelo tempo, tinha as bordas esgarçadas e manchas amareladas. O estilo de escrita remetia ao português arcaico; as características linguísticas e ortográficas reforçavam a origem em um período muito remoto.


Mas Bénézet —


A luz branca e fria da tela deu lugar a um tom vermelho, que agora iluminava o rosto dele:

Atenção!

Os dados deste formulário ainda não foram enviados. Se sair agora, tudo será perdido.

Cancelar Sair mesmo assim

A tela se apagou. Na penumbra repentina, Bénézet empurrou a cadeira para trás e se levantou, soltando um suspiro pesado.

Bénézet trancou a porta da delegacia com um estalo seco, sabendo que não deixava apenas um prédio vazio para trás. Retirou a garrafa de conhaque do bolso do casaco e a acomodou ao lado da sua bolsa sobre o banco do carona de seu carro.  

Deu partida e, no breu da madrugada, seguiu pela estrada até parar e desligar o motor diante da casa agora carbonizada, que dias antes se tornara o centro de tudo o que ele agora tentava esquecer.

Do bico da garrafa, tomou mais um gole demorado de conhaque — queimava, mas não o suficiente para transformar as suas memórias em cinzas. Ficou ali, olhando para os escombros enegrecidos, como se buscasse algo. 

Quando finalmente chegou em casa, no jardim dos fundos, uma lata enferrujada já se tornava o palco de seu próximo ato: colocou as evidências sonegadas dentro e despejou sobre elas o restante do conhaque.

Acendeu um fósforo. Observou a chama tremular por um instante, pequena e frágil, antes de lançá-lo na lata.

Por um momento, nada aconteceu. Então o fogo despertou — primeiro uma chama tímida e azulada, predando tudo aos poucos.

O punhado de fotos ardia rapidamente, mas o texto “Ypykuéra” ainda resistiu por um breve instante antes de também se entregar às cinzas.

Através das chamas, Bénézet conseguiu percorrer algumas daquelas linhas pela última vez:

“...murmura-se entre os audazes que nunca forá vencido; antes, vive occulto entre nós, como sombra que jaz nas águas turvas. E, se alguma vez o foi, voltará, assy o dizém, com grande furor...”

“...e o mal se movem escondidos, como sombras que jazem no lume d’inferno, aguardando o tempo em que, de novo, hão de surgir perante os homens...”

Ficou ali, fitando o fogo. Nas chamas, suas memórias dançavam ilesas — diferente daqueles que presenciara serem consumidos vivos, a pele se desmanchando sob o calor feroz.

No ondular do fogo, o tempo pareceu desfiar-se. Bénézet continuava ali, preso à amargura de perguntas sem resposta, tentando compreender o fim.

Então, a pequena labareda dentro da lata cresceu até ocupar todo o horizonte. A fumaça que subia com os fragmentos incandescentes pareceu desenhar no ar o contorno do passado, fundindo-se ao rastro de outra fogueira — meses antes, a milhares de quilômetros dali:

O pesado maquinário expandia ainda mais a enorme mancha de devastação nas terras e águas virgens. Grandes buracos de tons marrons cortavam o verde da reserva indígena, como estradas cruas abertas à força no coração da floresta.

A noite caía rapidamente. Uma fogueira já crepitava na penumbra do acampamento clandestino. A iluminação era precária — algumas lâmpadas improvisadas presas a geradores ruidosos —, mas nem mesmo o breu os intimidava. Sem misericórdia, madeireiros e garimpeiros avançavam floresta adentro, rasgando a terra.

O cheiro de terra remexida e raízes dilaceradas impregnava o ar, úmido e pesado, misturado ao odor acre de óleo diesel e madeira recém-ferida. O frio da noite começava a rastejar entre os troncos derrubados, fazendo o vapor da respiração surgir breve diante das bocas cansadas.

Os troncos das árvores abatidas eram podados, catalogados e transportados para outro ponto da enorme clareira, onde se empilhavam centenas de toras de madeira nativa.

A floresta ao redor ainda murmurava seus protestos: galhos estalavam, insetos zumbiam sem trégua e o chamado distante de aves noturnas ecoava entre as árvores. Algo estava errado. Sob o piscar dos vaga-lumes, subia uma nota acre e amarga, como se o medo tivesse passado a ter cheiro.

Sons que, pouco a pouco, eram abafados — deixados em segundo plano — pelo rugido metálico das máquinas e pelo bate-boca áspero dos homens ali presentes.

“Que porra é essa?”, o cara com uma motosserra iluminou a árvore com sua lanterna e chamou os demais. Musgo verde cobria o tronco, mas o brilho úmido de uma substância viscosa se destacava, negra como uma baba espessa.

“Além de anciã, tá morrendo, coitada!” falou outro que parou para observar.

“Aê”, autoritário, alguém chamou a atenção “Mas que merda tá acontecendo aqui?”

Ele era um sujeito muito bem-vestido para se estar ao redor de um lamaçal daqueles. Se aproximou, fumando um baita cigarro.

“E os índios?”, após um longo trago, quis saber.

“Cê sabe, né chefe?”

Um dos criminosos deu um passo à frente descansando seu machado no ombro:

“Tão espiando a gente. Os caras tão é com medo de levar uma frechada das Amazonas bem na testa.”

O engravatado revirou os olhos com a notícia.

“Mas se liga nessa daqui!”, prosseguiu o madeireiro, apontando para a árvore. “Já viu algo parecido?”

O comandante da facção agarrou para si o machado do madeireiro e caminhou até a estranha árvore.

“Derrubem e descarte essa porcaria”, ordenou.

“Dotô”, alguém se manifestou. “Essa não é bem a única, não. Lá pra frente tem um bocado assim. Não são as mesmas, mas todas tão com os troncos e os gáio desse jeitin’ aí, e tão com umas manchas brancas nas folhas também, sabe?”

“Quem se importa?”

“E... um dos nossos tá sumido desde ontem à noite, e ele foi pr’esses lados aí da floresta. Acho que até escutei uns tiros vindo de lá, tipo de revólver… sei lá.”

“Rapaz, hora ou outra ele volta. Tiros... isso não passa de pirarucu predando no rio.”

Houve um silêncio por parte de todos, como se as palavras seguintes estivessem presas no ar, procurando coragem para cair.

“Tem mais uma coisa...” o homem insistiu, a voz mais baixa, quase engasgada.

O Dotô soltou um suspiro impaciente:

“Desembucha logo, homi.”

O sujeito coçou a nuca, olhando de relance para os outros, como se pedisse coragem emprestada.

“Tavam cavando lá perto do igarapé... acharam umas ossadas”

“De bicho?”

O homem negou devagar.

“Não senhor.”

“Não? Dinossauros, não?”

“É de gente.”

Alguém atrás dele murmurou uma praga.

“E né só isso, não...”, continuou o homem, engolindo em seco. “São pequenos demais. Miúdos... são de crianças.”

O vento soprou pela clareira, as folhas manchadas das árvores farfalharam acima deles.

Dotô ficou imóvel por um instante, o olhar endurecendo.

“Crianças?”, repetiu, sem emoção.

“Sim, senhor. Não é só uma não, são três.”

Um dos homens ao fundo fez o sinal da cruz, quase escondido.

“Tavam enterradas um pouco fundo. E... na cova do meio tinha...”

O homem caminhou até uma mesa improvisada — duas tábuas tortas apoiadas sobre caixotes — e pegou um pequeno pacote que haviam encontrado junto à segunda ossada.

Era uma bolsa antiga, feita de um tecido grosso que um dia talvez tivesse sido lona ou algodão encerado. Agora estava escurecida pelo tempo, manchada de terra e mofo. As costuras estavam frouxas em alguns trechos, o material parecia ter lutado anos debaixo da terra para preservar o que havia dentro.

Mesmo assim, o tempo não tinha sido totalmente derrotado.

“Achamos isso lá.”

Ele abriu a bolsa com cuidado, como se temesse que o simples gesto pudesse desfazê-la.

De dentro, retirou uma pequena boneca de pano, já quase sem cor. O tecido que formava o corpo estava gasto, sujo de terra, e o vestido estava queimado de um lado; um dos olhos bordados tinha se soltado, pendurado por um fino fio. O cabelo, feito de fios de lã, estava emaranhado e endurecido pelo tempo.

Ao lado dela havia um saco plástico transparente, e dentro, uma fita cassete e uma papelada dobrada ao meio.

A carcaça de plástico transparente estava amarelada pelo tempo, as duas bobinas escuras ainda visíveis através do plástico arranhado. Um dos cantos parecia rachado, e o interior da fita mostrava sinais de poeira e umidade. Os pequenos parafusos que mantinham a carcaça unida estavam tomados por ferrugem, formando manchas avermelhadas que se espalhavam ao redor das cabeças metálicas.

“Quem sabe não arruma um toca-fitas para ver se ela ainda funciona... mas do jeito que tá...”

Ele deu de ombros, recolocou os achados na bolsa e a passou para seu Dotô.

“Que que'cês fez com a ossada?”

“Tá lá ainda. A gente cobriu com um pouco de terra pra não deixar à mostra.”

Dotô fez sinal para dois cara.

“Vão lá e joga 'sa porra no rio. Pra ontem!”

Os dois rapazes fizeram que sim e partiram.

O Dotô cuspiu no chão.

“Capeta de lugar! Só problema... se os homi da lei pousa aqui é descobre uma coisa dessa, 'cês sabe que 'sa merda sobra é pra gente, né? ”

“Mas… o senhor não acha que —”

“Eu acho”, interrompeu ele, frio, “que 'cês têm serviço pra fazer, não?”

O rádio comunicador preso ao seu cinto chiou, cuspindo um ruído estático.

“Dotô… Já fizemo o serviço. A ossada tá toda no fundo do rio já.”

“Bom.”

Houve um estalo de interferência.

“Agora vê se 'cês dão o fora daí. E ninguém abre a boca sobre isso.”

Ele soltou o botão, deixando o aparelho cair novamente contra o cinto.

“E... Mais um aviso, se esses nativos bisbilhotarem mais uma vez…”, falou segurando firme no cabo do machado. “Mostrem a eles com quantos pau se faz uma canoa!”

Concluiu cravando o machado no tronco da mucosa árvore e então —

Trovejou?

“O que foi isso? Cês ouviu?”, disse um rapaz.

“Tá com medo dos nativos, é?”, provocaram, lançando a luz da lanterna como um desafio direto aos olhos assustados dele.

“Não! Ouvi algo! Algo como…”

Seja lá o que fosse, rouco e agudo, como um rugido, aquilo se fez audível em todo o acampamento. Instintivamente, as lanternas foram direcionadas para o interior da densa mata, densa escuridão.

“Que diacho foi isso?”, balbuciou alguém.

“Preparem os acenos!”, um rapaz, aflito, ordenou.

“Deve ser os nativos”, propôs um ruivo barbudo ao empunhar sua espingarda.

Uma resposta nítida ecoou ao pressionar o gatilho. Aprumado e acompanhado de um chiado solitário, cortando as nuvens, o rastro de luz voou da forjada clareira — era um sinal pirotécnico, fora lançado por uma rústica pistola de metal, utilizada por eles para alertar outros criminosos não tão distantes dali. Fizera chover, vagarosamente, uma luz vermelha sobre a área clandestina. Os bandidos permaneceram inertes sob a vislumbre luminescência, face-a-face com o breu inalterável na floresta.

“Está ali!”

Alguém disparou sua arma contra o par de olhos flamejantes que emergiu da escuridão.

A coisa pulou para fora do mato em cima dos atiradores.

“Entocar, entocar!”

O requintado cambaleou ao assistir, em espanto, o cano de uma espingarda ser moído inteirinho por dentes vorazes.

Antes de se dissolver na escuridão, a criatura espancou e arremessou um rapaz contra a gosmenta árvore que se fez viva e faminta — movediça.

“Socorro!”, berrava, sendo engolido pelo muco sombrio.

Se debatia com dificuldade numa tentativa de escape. Ninguém cogitou dar um passo à frente para socorrê-lo, afundou no tronco até desaparecer.

“Misericórdia!”, exclamou uma voz trêmula, longe de acertar o alvo, enquanto suas mãos inseguras tentavam dominar a espingarda que parecia pender a cada movimento.

O líder dos criminosos abandonou tudo. Disparou para longe, seus passos acelerando num ritmo frenético, cada vez mais rápido, enquanto lançava olhares assustados por sobre o ombro para o monstro que rugia furiosamente atrás dele. Em uma prece silenciosa pela própria existência, buscou refúgio atrás de uma das máquinas pesadas. Ao longe, o caos se desenrolava em ondas de pânico: tiros estalando, gritos cortando o ar. Firmemente segurando seu terço, suplicava pelo fim daquele pesadelo.

Quando a atmosfera finalmente acalmou, esforçou-se para controlar a respiração, relaxou o punho e permitiu-se um momento de alívio — até que, deformando a lataria da escavadeira:

Um, dois… três… quatro passos e...

Silêncio.

Uma gota gelada e mucosa pingou na sua testa, escorreu bem devagar em direção aos seus lábios. Tremendo, ergueu a cabeça. Os olhos se arregalaram, a respiração prendeu na garganta. Uma lágrima escorreu enquanto ele apertava o terço com força na mão.

Um ruído gutural ecoou acima dele.
Lentamente, seu olhar acompanhou a origem do som.
O que viu roubou-lhe o fôlego.
A boca se abriu para gritar.

Tarde demais.

Suas pernas se debatiam violentamente no ar enquanto um grito de puro horror escapava de sua garganta, mas logo cessou — o sangue jorrou de seu pescoço, ensopando suas roupas e escorrendo pelo braço até alcançar e envolver o terço que pendia de seu pulso.

A floresta permanecia estranhamente silenciosa, como se abrisse espaço apenas para o gotejar do sangue na terra lamacenta e sobre a antiga bolsa largada no chão — e para o gorgolejo espesso que ainda escapava da garganta daquele homem.

O som persistiu por um instante — viscoso, sufocado — como se ainda ecoasse entre as árvores.

E continuou ecoando — só que agora era a torneira pingando na pia, o gotejar miúdo sobre a louça suja. Naimoân estava sentado à mesa da cozinha, o livro de biologia aberto à frente, a caneta ainda entre os dedos trêmulos. A luz cinzenta da manhã entrava pela janela e pela sua pupila dilatada; ele não fazia ideia de quanto tempo tinha ficado ali, pois sua consciência estivera ausente.

Então, uma gota soou mais pesada que as outras.
Ele baixou os olhos. A página se manchava de vermelho.

Fim do prólogo

O próximo capítulo, “Nuances”, estará disponível em breve.

©   •  Timothée Zendi
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